VIVA A VIDA! VELHOS CARNAVAIS DE ILHÉUS


Por ser próxima a Rua Fonte da Cruz, onde resido até hoje, desde cedo freqüento a Avenida Soares Lopes. Lembro-me perfeitamente de sua beleza exuberante, totalmente arborizada, com inúmeros canteiros no meio, sendo ornamentados por postes de bronze tipo colonial, sinalizando mão e contra mão.
No período carnavalesco, os Jipes e as camionetes, trafegavam pela Avenida, enfeitados de confetes e serpentinas.
Os foliões demonstravam total alegria, cantarolando a música da época: “O vovô ia a cavalo/ para visitar vovó/ o papai ia de bicicleta / ora vejam só/ Hoje tudo ta mudado/ ta mudado sim senhor/ pois eu tenho minha lambreta/ para ver o meu amor. Corre corre lambretinha/ pela estrada além/ corre corre lambretinha/ pra ver meu bem.
Toda orla era iluminada e decorada de adereços, para receber os foliões, blocos, escolas de samba, pirrôs e colombinas, batucadas e afoxés.
No período carnavalesco, costumava-se fazer homenagem ao então Prefeito Herval Soledade, em frente a sua residência , cantarolando aquela musiqueta: Herval é o maior/ Herval é que é o tal/ que coisa louca/ que coisa rara/ Herval não respeita a cara.
Ou então cantavam aquela marchinha: Viva Zé Pereira..... Diferente da letra original cantavam assim: Viva Sá Pereira/Viva o carnaval/ Viva Sá Pereira/ No cenário nacional.
Sá Pereira, era um homem ilustre que residia em nossa cidade, tratava-se de um ser humano caridoso, muito bom , que trabalhava em prol dos mais necessitados. Chegou fundar um Banco denominado Banco Sá Pereira. Além de emprestar dinheiro aos pobres, Sá Pereira cedeu vários patrimônios de sua propriedade. Era muito religioso,e sua assinatura era interessante, pois afirmava ser o 1º Servente da Virgem Santíssima. Certa época teve uma pequena divergência com o então Bispo Diocesano Dom Caetano, que chegou a lhe excomungar , contudo depois voltaram a normalidade, por ordem do Vaticano. Ilhéus deve muitas homenagens a essa figura humana extraordinária.
Após as homenagens, o então saudoso Prefeito aparecia na janela, acenando para os carnavalescos, e a batucada de Torôco rufava os tambores, gritando: Viva Herval, Viva Ilhéus, Viva o carnaval.
Era tradição também ir aos Clubes e os bailes iniciavam exatamente às 22:00 horas e terminavam às 04:00 horas, o clube mais freqüentado pela elite da época era o Social de Ilhéus; O clube dos Bancários era dos intermediários e o Clube dos Comerciários era freqüentado pela classe comerciária. Tive o privilégio de freqüentar todos os clubes, inclusive o Clube Social do Pontal, embora gostasse mais dos Comerciários, pois o carnaval era mais alegre e participativo.
Quando terminava a noitada era hora de fazer o rango e como eu tinha pouca grana, íamos à Padaria Luso Brasileiro, saborear aquele pão comum bem quentinho com mortadela e manteiga, despachado pelo tradicional Seu Pereira, que nos dizia: “Que beleza, eu trabalhando e vocês dançando”.
Contudo quando a grana era gorda, íamos ao Restaurante Jangadeiro , de propriedade do Ministro da Educação Walter, que não aceitava nenhuma reclamação por parte do freguês. Certo dia, alguém pediu um filé a cavalo e o filé foi servido sem o ovo estrelado. Após a reclamação , o Ministro da educação aproximou-se da mesa e recolheu os pratos dizendo: “O meu filé sirvo da minha maneira, pode sair e não precisa pagar nada” e deu aquela baforada com seu cigarro mata rato.
Também era muito comum caminhar tranquilamente pelas ruas da cidade, na madrugada, muitos amigos moravam no pontal e tinham que aguardar a primeira lancha, outros moravam na Conquista ou no Malhado e aguardavam o horário dos primeiros coletivos. Eu e outros que residiam no centro, íamos para Avenida, contemplar nosso maravilhoso mar.
Após o carnaval, a cidade voltava sua normalidade, e a avenida passava a ser o palco da juventude e dos casais de namorados. Era bom demais, quando marcávamos encontro com as namoradas na avenida, e íamos para o Cine Santa Clara. Depois do cinema era tradição desfilar com a namorada , de mãos dadas e lutar para conseguir aquele beijinho, e pontualmente àss 21:30 , era hora de deixar a namorada em casa, senão perdia a média com o pai da garota, pois o compromisso era muito sério.
Depois, era a vez de encontrar-se com os amigos para fazer farra no Bar Santa Clara , na Boate Lido, nos Búzios ou nos Velhos Marinheiros, ou visitar “as meninas” no Carneiro da Rocha ou na Rua do Dendê.
Hoje não temos aqueles carnavais de outrora, Herval , Seu Pereira e outros conhecidos, foram morar no céu, os clubes Bancários, Social do Pontal e os Comerciários não existem mais, as ruas estão desertas, a rua do Dendê e Carneiro da Rocha passaram a ser comerciais e residenciais, a Avenida encontra-se vazia sem os casais de namorados, pois a população teme ser assaltada .

Colaboração de Luiz Castro
Bacharel Administração de Empresa
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